"Quem sou eu para dizer qual a canção que deve brotar de sua alma? Eu me lembro, meu bem, das partituras que eu escrevi naquele dia em que você estava deitada em minha cama, deixando em cada canto do meu quarto resquícios de tua monotonia. Eu chorei quando me lembrei do fá menor e do mi bemol que eu coloquei em pauta e naquele compasso irregular que era a minha tentativa de sinfonia. Mas eu estava desafinado, minha música havia se perdido quando você passou pela porta me deixando poeticamente sozinho e maltrapilho. Eu não queria me importar, mas você era a canção que brotava do fundo da minha alma, assim como cada nota, cada compasso e cada escala tinha o seu nome gravado nelas. Eu ouço a canção irregular que eu compus naquele dia, ouço cada combinação perfeita e me lembro do sorriso que brotou dos teus lábios no momento em que a toquei pela primeira vez em minha clarineta para você ouvir. Eu errei duas vezes, mas você tratou a terceira como se fosse a primeira, porque os meus erros não importavam pra você naquele momento ímpar. Eu não queria sair dali, queria morar em teu abraço e fazer com que minhas estrelas fossem livres ao céu de tua boca e que as nossas constelações se juntassem em uníssono. Eu não sei te esquecer, lembro de cada momento como se tivesse sido ontem e morro todas as vezes que lembro que tudo passou como num piscar de olhos. Eu não sou Beethoven ou Bach, mas sei que criei a mais linda das composições. Porque você é minha canção e eu sou o maestro que rege a sinfonia que brota do teu peito."
— Filipe Ramalheiro, Anarquismos.