"Silêncio. Eu olho para o espelho e não vejo nada. Apenas um corpo, podre, mendigo, amargo. Meu rosto não tem formato, não tem cor, não existe. Não tem gestos. Não tenho feições tristes, felizes, raivosas, alegres. Não tenho rosto formado. Meu rosto é neutro. As pessoas não me vêem sorrindo. Não me vêem chorando. Simplesmente perdi os movimentos do meu rosto. Lá no fundo, bem no fundo, talvez eu ainda exista. Estou desligada. Me olhar é passageiro. Pálpebras caídas. Boca murcha. Sou o vácuo do resto da dor que me sobrou. Solidão, drama, angústia é tudo que sou. Estou ensandecida atrás no meu rosto. Parece que eu desapareci de mim. Tenho um nó na mente. Apenas resolvi sair e não voltar. O meu veneno está tendo efeito. Meu veneno me embriagou. Estou morta. Viva, mas morta. Será que você me entende? Meu corpo está aí, comigo. Mas eu já fui faz tempo. Não tenho rosto, não tenho alma. Fiquei me olhando, sem deixar meus olhos percorrer para lugar algum, olhando diretamente para o espelho, me perdi. Depois de um breve silêncio, concluí. Tenho o resto da desgraça que sou. Repugnante."
— Ana Lua.