"Não, vem cá. Me conta seus medos, qual seu maior defeito? Você nunca vê qualidades em si mesmo. Eu entendo, também não vejo alguma em mim. Ei, volta aqui. Porque tanta pressa? Não tem táxi nesse lugar, ou algum ônibus, qualquer coisa. Só tem eu e você. E eu quero saber, qual seus medos? Qual o problema do coração partido? Já sei, é medo de ser esquecido? Medo da rejeição? Medo de não ser o suficiente? Acredite, eu te entendo. Me sinto assim de vez em sempre, me acostumei com essa vida. Mas podemos mudar isso, você pode. Eu sou a parte ruim, sabe? Eu sou aquela que fuma, que bebe e que visita botecos quase todos os dias da semana. Você protege, ouve a todos, concorda para não decepcionar ninguém. Que vida é esse, Zé? Você está preso a você mesmo. Estranho, digo, chato. Porque isso não é vida, concorda? Sei que pode doer decepcionar alguém, mas e tu Zé? Você de decepciona tanto, mais tanto, que só de olhar em seus olhos podemos perceber. Você não nasceu para amar. Odeio ter que chegar no ponto “amor” mas é a verdade. Olhos tristes, carência, pele pálida, magreza. Exatamente isso, você está deprimido. Mas tudo bem, podemos mudar isso, não? Não. Você não pode mais, muito menos eu. Não nascemos para virarmos isso, Zé. Não nascemos para o amor. Como se tudo já estivesse de cabeça para baixo, como se nada fosse do jeito que imaginamos. Como se estivéssemos presos nisso, e nunca poderemos sair. Porque isso é a vida, silêncio e mais silêncio. Medo de tudo e de todos."
— Tabacos.