"Joaquim tirou os sapatos e os arremessou num quanto qualquer do quarto”, foi assim que minha noite começou, atirando os sapatos. Me chame de Joaquim, ou como queira. Vim aqui lhe contar quem sou, ou talvez que eu queria ser. Nunca fui um homem de muitos sonhos, mas as expectativas que tive em mim foram imensas e me arrasaram quando destruídas pelo mundo caótico e efêmero. Hoje sou o que restou dos sonhos de um jovem que ansiava ser poeta, sim, esse ser triste. É que a tristeza sempre me coube perfeitamente, a melancolia sempre arrancou de mim palavras calmas e suaves que emocionavam as pessoas, a solidão me fazia dançar e levitar por cada nota musical, a poesia me afundava num mar de rimas e esboços mal remendados, porém, belos quando arrumados numa folha em branco. Fui um mar de desilusões, sou um rio de contemplações pouco úteis, mas que quando adentro a madrugada, me fazem delirar. Acordei com meus poucos anos, em uma madrugada, à luz da lamparina. No meu tempo, quando faltava óleo, o jeito era se esgueirar pelas brechas procurando um feixe que incidia com luz da lua roubada do sol. Assim como sou encontrei buraco e pus minha redondilha maior a pleno vapor. Compus. Eu, Joaquim, homem quase feito, com sobrancelhas longas e boca carnuda, caí de amores a beijar a pálida folha com meus encalços poéticos deslavados, desprovidos, desmantelados e desmotivados, ou melhor, motivado apenas pela ausência do quê fazer em uma insônia qualquer que inunda almas em noites que falta combustível da lâmpada. Minha cama, desarrumada, continha os volumes mais densos que se possa ver. Gostava de Pacheco, meu amigo poeta, o único que tinha, mas ainda tinha certa amizade ideológica com Luís e Macêdo, outros dois que nutria certa admiração comparada a que resguardava por José, meu amante em segredo. Joaquim que sou, deixei o nome gravado na minha gaveta, no meu canto de papel e no entalhe do meu caderno. Adormeci. Atirei os sapatos para o lado antes porém, deixei o cabelo de lado antes porém, pus o meu sono em dias, minha lamparina acesa enfim encontrou o combustível que incendiou meu altar de pinho e em consequência consumiu minha carne de poeta pretensioso. Joaquim que sou, fui. Pedido nos meus delírios, perdi os delírios. Gente que como eu pensa demais, fala demais, cuida demais, compõe demais, acaba fornicado por palavras avulsas embaralhadas sem ânimo em um canto de uma folha pálida. Todo poeta, escritor, prosador, sonhador, é antes de tudo um Joaquim que atira para todo lado seus sapatos e deixa seu nome ser esquecido em prol de sua obra anônima. Entalhado apenas fica o nome, quase apagado, nas cinzas do quê um dia foi um lugar sagrado para cerimônias literárias à luz de vulgares brechas nas janelas de vidro de meu quarto de composição."
— portugrafica e Eufemizador