"Eu senti o gosto amargo do cigarro que não fumei. Meus pulmões saudáveis e imune de qualquer câncer era de longe algo pelo qual eu comemoraria. Pela minha relutante mania de ser o depois, talvez, pelo azar de nunca ser o antes. A ressaca do que não bebi, a ovelha incolor e inodora de uma família. Porque metade das coisas que escolhi, ainda estão no papel. Mas, as duzentas que temi a vida inteira, aconteceram e ainda vão acontecer dia pós dia, sem aviso prévio e sem amenidade. Temo ser eu o erro, e ter nascido do avesso. Com o coração exposto ao frio e ao fogo. Porque tudo em mim dói mais, arde mais, acontece demais. As consequências disso são feridas latentes, mas que, sem elas eu não teria a mínima noção do que seja viver. E quem é que precisa de enfermidades, cânceres e outras doenças malignas, quando se tem um coração assim? Entendeu? Nada me impede de fumar, ou de amar. Já estou condenada ao erro de existir."
— Juliana Ribeiro.